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Foto: Marina Wang

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Missão. Palavra grande, séria, que costuma vir acompanhada de metas, planejamentos estratégicos e reuniões intermináveis. Aqui, quando alguém fala em missão, o palhaço já tropeça na palavra, derruba a gravidade e transforma tudo em jogo. Porque, no fundo, essa tal de missão não é um destino fixo, mas um modo de inventar caminhos onde antes só havia linha reta.

É desse jeito torto que se constrói o trabalho do Seu Bonanza, um palhaço menino que procura poesia nos objetos mais improváveis que encontra na vida.

Seu Bonanza habita essa zona rarefeita onde a espontaneidade encontra a alegria e onde a brincadeira ainda é capaz de surpreender o adulto, de forma inesperada.

Foto: Larissa Schimidt

Mas Bonanza é mais que nome, é princípio filosófico que se busca aplicar na vida. Em seu sentido profundo, Bonanza é fartura, calmaria, prosperidade, o estado em que o mar repousa e o vento se aquieta. Em cena, a bonanza torna-se a capacidade de perceber abundância no mínimo, encontrando preciosidades na simplicidade, no que sobra, no descarte e no abandono.


É um exercício de delicadeza: descobrir ações, situações e histórias inteiras escondidas nos objetos, nos interstícios e nas pequenas irrupções de alegria que resistem ao cotidiano.

Caminhar desse modo, hoje, implica também olhar para o mundo ao redor e para as relações que nele se produzem. Em um cenário em que corpos, saberes e culturas historicamente marginalizados reivindicam espaço e visibilidade, o humor também precisa ser repensado: do que se está rindo? Quais comicidades estão sendo legitimadas? E, sobretudo, qual é o papel da palhaçaria nesse processo de ressignificação?

Essas questões atravessam a trajetória de mais de quinze anos do palhaço Seu Bonanza e permanecem, no presente, como problematização constante de seu trabalho.


É a partir desse compromisso ético, estético e político que se constrói a poética do palhaço Seu Bonanza: uma dedicação contínua à pesquisa, à criação e à produção teatral. Seu Bonanza tece a palhaçaria não apenas como linguagem que provoca o riso, mas como uma arte que propõe uma presença mais autêntica no mundo. Um modo que acolhe o erro e a fragilidade humana e acredita no jogo como força criativa, capaz de abrir brechas na realidade e revelar, na inutilidade do objeto, a alegria de imaginar outros mundos.

@2026 Rodrigo Costa

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