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Pesquisa

Falar em primeira pessoa foi um pedido da pesquisa. O SeuBonanza não sabe falar de longe, nem por vias muito formais: ele pensa fazendo, erra tentando e descobre brincando. Assumir o “eu” neste texto é uma escolha coerente com o modo como a pesquisa acontece. É desse lugar, entre a alegria, o jogo e a
prática em cena, que a investigação começa de forma simples, como convém ao Seu Bonanza: brincando com um objeto que, à primeira vista, parece não servir para muita coisa. A partir da brincadeira, que se apresenta de modo aparentemente ingênuo em Seu Bonanza, se estabelece o encontro entre as linguagens da Palhaçaria e do Teatro de Objetos, dando origem ao meu trabalho e orientando o modo como penso, crio e investigo a cena. Ao lidar com objetos comuns do cotidiano, como uma lata, um tapete, uma bola de gude, um ventilador ou uma caixa de papelão, descubro que estas materialidades, quando deslocadas de sua função utilitária, passam a instaurar situações de jogo, surpresa e comicidade.


Mais do que isso, nesse encontro, os objetos passam a revelar algo de quem brinca com eles. As ideias mais absurdas emergem, e eu acabo por me mostrar por inteiro nessa relação, assumindo vaidades, erros, desajustes e fragilidades, transformando essa experiência em poesia e humor. Dessa relação, tudo pode se tornar possível em
cena: ações, situações, personagens e até histórias inteiras que, pouco a pouco, se organizam em dramaturgia.

 

Ao me permitir brincar a partir do que chamo de espaço da inutilidade do objeto, encontro o prazer e a alegria de ser Seu Bonanza, e daí emergem a descoberta, a invenção e a comicidade. Nessa brincadeira, os objetos deixam de ser meros utensílios e passam a ocupar o lugar de parceiros de cena, atuando como mediadores da ação cômica e, muitas vezes, como protagonistas da narrativa.


É nesse lugar inútil, onde nada precisa cumprir função alguma, que encontro a possibilidade de expressar a alegria na poesia da palhaçaria. A alegria, nesta pesquisa, é compreendida como um corpo cheio de vida: disponível e generoso para o jogo, e também como uma força política que subverte a tristeza que se apresenta como enroscos e amarras — aquela que oprime, discrimina e impede a manifestação de uma de nossas expressões mais genuínas: a alegria como potência de ação na vida (SPINOZA). Entre erros assumidos, soluções improváveis e pequenas tragédias cômicas, o jogo com os objetos se afirma, para mim, como alegria propulsora da criação cênica do palhaço Seu Bonanza.


Assim, a pesquisa se desenvolve como um exercício contínuo de descoberta dos objetos na vida e na cena, no qual o brincar é entendido como ofício, como caminho, campo de investigação e reflexão da experiência criativa na palhaçaria. Para Seu Bonanza, pesquisar é isso: criar um espaço onde o pensamento nasce da alegria de
brincar, onde se brinca até descobrir ou se descobre brincando.


Dentro desse horizonte ético e político de criação, venho pesquisando procedimentos técnicos, criativos e temáticas que se alinham às seguintes abordagens:


» Investigar, por meio de um jogo autoral com os objetos, um humor que revele a
singularidade de cada palhaç(a/e)o;
» Coletivizar os conhecimentos que nascem da prática de pesquisa, por meio de uma dramaturgia que expresse a alegria do palhaç(a/e)o e o potencial simbólico e metafórico dos objetos;

» Transformar a matéria literal (objeto) em poesia visual, a partir de referenciais de humor e pensamentos próximos da cultura brasileira.


Em resposta a essas abordagens, ao longo de mais de 15 anos de pesquisa, venho desenvolvendo meu trabalho como palhaço Seu Bonanza. Fui aluno da Universidade Estadual de Londrina (UEL) entre 2006 e 2009 e um dos idealizadores e cofundadores do grupo Nossa Trupe Teatral, no qual permaneci de 2011 a 2025, compartilhando minha pesquisa por meio dos espetáculos de palhaçaria: Seu Bonanza (solo), Seu Bonanza em Jogo do Amor (solo) e A Incomum Arte de Não Prestar Para Nada (direção). Em 2024, concluí o mestrado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), sob a orientação de Raquel Scotti Hirson, com a dissertação intitulada A Palhaçaria e os (Des)objetos: por uma reconciliação com a inutilidade, apresentando como parte do estudo meu terceiro espetáculo solo, Seu Bonanza em… Bernardo, o Apanhador de Desperdícios.

@2026 Rodrigo Costa

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